quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quisera...

Poder dizer com umas poucas palavras
Das angústias que castigam gerações
E das mortes cruéis causadas pelas coisas
Que queremos ter, e não temos.
Quisera o homem ser inocente na sua ida
E que na volta pudesse aprender consigo mesmo
Que vivesse com menos do que mais
E que pudesse partilhar o que tem
Quisera ser mais gente
Mais vivo
E que o sonho fosse bom, alegre, iluminado.
E que pesadelos fossem lampejos insones
E que entre tantos e tantas que andam
Sem rumo, buscando algo indefinido,
Que pudéssemos todos ser mais felizes

Quisera...


(divagações numa manhã qualquer).

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Divagações de um andante em uma noite de segunda-feira

Às vezes “me gusta” escrever algumas letras. Sento-me à frente da telinha do computador e começo a dedilhar o teclado. Deixo o coração falar. Ele fala, grita, geme. E, nisto tudo, o que acontece é que eu me permito sentir e dizer aos quatro ventos que é possível pensar num outro mundo. Um mundo um pouco mais ético, mais justo, no qual as pessoas se medem pela capacidade de compartilhar seus sentimentos, abertamente, sem medo de se expor. Na realidade, o que percebo é que na maior parte das vezes acontece exatamente o contrário: as pessoas se escondem por detrás de carapuças intransponíveis, máscaras que camuflam a capacidade de dizer abertamente: “eu sou feliz” ou o contrário. É o jeito de não assumir suas fragilidades, seus medos, suas dificuldades de se situar em um mundo cheio de desafios. O que isto trás de bom para todos nós? Uma pergunta que paira sobre todos, especialmente sobre mim. Vejo isso no dia a dia, nos diversos ambientes que frequento. Tanta gente boa, de bom coração, de boa índole, pessoas éticas, que querem fazer da sua existência algo significativo e, ao mesmo tempo, se privam do direito de ser protagonistas de sua vida. Outro dia escutei algo do tipo “é tão mais fácil ser feliz”. Bingo! E, no entanto, nos esforçamos no desejo de sofrer por tudo. Jogamos aos outros a responsabilidade por nossas vidas, não assumimos a condução da nossa rotina, brigamos com o direito de sermos verdadeiramente felizes e, nisto tudo, adoecemos. Adoecemos... Sabe, como é bom poder se emocionar com cenas da vida, cenas verdadeiras, que emocionam. Como é bom verter lágrimas, poder sentir pequenas emoções, ser “cavalinho” dos filhos... Delícia. Sei lá, quem me conhece me conhece. Quem não me conhece, me estranha. Mas eu me dou a libertar de pensar abertamente, até por que acho que fazendo isso ajudo outras pessoas a pensar abertamente e, assim, talvez se libertem das amarras, das máscaras, do esconder os sentimentos. O mundo é tão bonita, a vida tem tanto a oferecer que é injusto nos jogarmos na mediocridade de pensar que nada vale a pena. Pelo contrário, tudo vale muito a pena, tudo é de uma perfeição divina, algo sublime. Conviver e viver é a razão de tudo, o amor em sentir-se vivo, em andar para frente...

domingo, 29 de setembro de 2013

Para começar bem a semana: uma canção pela vida e pela solidariedade.

Na tarde de sábado tive uma experiência indescritível. Aconteceu o MusiCAPS, em Lajeado, na sua III edição. Estiveram presentes uma série de serviços de diferentes municípios do estado. Trabalhadores em saúde, comunidade e usuários dos serviços juntos, cantando a boa música, convivendo, partilhando experiências e sobrevivendo às angústias que estão em torno da vida de todos nós, mas para alguns mais que outros (talvez). Vi e ouvi coisas que ficam na minha memória para sempre. Vi um grupo de homens, todos com mais de 18 anos, cantando à plenos pulmões o amor pela vida e a vontade de vencer suas fraquezas. Estavam acompanhados de 5 anjos que dedicam suas vidas à recuperação dos dependentes químicos. Luana, Rosângela, Raquel, Mário e Inge são os anjos. Aplausos a estas criaturas e aplausos ainda maiores aos rapazes que perseveram e lutam a boa luta pelo "só por hoje". Vi o pessoal de Teutônia cantando e revi meu amigo Clóvis declamando uma poesia reverenciado a história heroica do Rio Grande. São heróis os que frequentam a Casa Mental e seguem suas vidas de brilho. Vi o pessoal dos nossos serviços de Lajeado e a maravilhosa interação que proporcionam com a MÚSICA. Maluco in Concert... Sim Pra Vida... Emocionante. Vi os pagodeiros de São Lourenço do Sul, da banda Sistema Nervoso... que nome, que lindo nome, apropriadíssimo.... Fizeram um show que levantou todo mundo no final das apresentações. Até eu dancei, veja só. Mas, entre todos que vi, entre tantas emoções, queria destacar o cantar de um rapaz que agora esqueci o nome (que lástima), mas que frequenta o CAPS AD Passarela, de Sapucaia do Sul. Ele tem 33 anos, mas o corpo sofrido lhe dá mais de 40. Magro, esquálido, combalido, cantou de um jeito que me lembrou canções de Bob Dylan. Compôs e cantou a música "Menina Branca". O branca remete à droga, à pedra de crack. Cantou de uma forma de arrepiar, da sua dependência, do seu amor doentia pela menina branca, que lhe corrói, que lhe acaba as forças, que lhe tira as esperanças e que lhe consome o mínimo de dignidade. Cantou a luta para libertar-se dos encantos sinistros da menina branca, que lhe causam o êxtase e a dor. Que lhe tiram o fôlego e, por fim, a vida. Se diz liberto deste amor, que está em outra vibe, em outro espaço, mas chorou neste ponto, abriu sua alma que deu vontade de ir ali, naquele momento, e abraçá-lo e dizer "meu irmão, você não está sozinho". Foi aplaudido, foi acolhido e queira Deus que tenha forças para suportar todas as angústias que a privação lhe causa. Sábado foi um dia tenso, um dia de luzes, de emoções e de esperanças. E, também, de sombras, de medos frente aos desafios que temos pela frente, hoje, amanhã e sempre. Como vencer? Postei no twitter, no sábado e repito agora... "não hesite em abraçar um irmão, é importante para ele, e para ti". Isso muda mundos. A solidariedade, o amor, mudam o mundo.

domingo, 22 de setembro de 2013

Me inspirem os cantos de todas as almas
e que seja assim por que tem que ser
e me façam o bem por que mereço o bem
e em frente, horizontes vagos, nuvens
o céu mais estrelado da noite mais limpa
o dia mais claro da história da vida
sonhos...

sábado, 14 de setembro de 2013

Quando a droga vence uma batalha

O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Nossa região está entre aquelas que têm maiores índices, em termos nacionais. Uma série de ações visam enfrentar este problema crônico, de causa multifatorial. Pois, neste mesmo dia 10, o consumo de drogas e, especificamente, do crack, teve uma vitória sobre todos nós, ao provocar uma morte por suicídio aqui em Lajeado. Um jovem de 29 anos tirou sua própria vida, possivelmente consumido pelo desespero de não suportar sua situação de dependência. Ele estava abstêmio a 25 dias mas sucumbiu. O rapaz era acompanhado no Ambulatório Municipal de Tratamento da Dependência Química, estava vinculado, sentia-se bem, animado com o quase um mês limpo. Sentia-se acolhido pela equipe dedicada que trabalha sob a coordenação da psicóloga Josiane Hilgert. Mas, pelas coisas não ditas, no silêncio de seu sofrimento, no ato mais extremo, a tragédia se consumou. Na sua carreira de consumidor de drogas foram 45 as internações. Isso mesmo, 45! Muitas delas foram compulsórias. Na rebeldia do vício, fugia, recaía, se arrependia, internava novamente e nesta ciranda sua vida se esvaía no sofrimento de todos (as) as pessoas que lhe conheciam e que torciam pela sua recuperação. À cada internação a esperança de que dessa vez o desfecho seria outro. Mas a droga é poderosa nos seus falsos encantos. Destrói resistências, aniquila o espírito, silenciosamente. Por momentos de alívio, vidas em vão. Toda guerra é feita de batalhas. Há vitórias e derrotas. Nessa semana perdemos uma das batalhas. Um símbolo para lembrarmos de quão dura é a jornada. Mas a boa luta é aquela que vale a pena e resgatar vidas é uma missão que ultrapassa a compreensão da maioria de nós. Meu profundo respeito à todos aqueles que dedicam sua vida no combate verdadeiro à dependência química. Não esmoreçam, persistam. À sociedade fica a mensagem do quanto o problema é sério. Nossa cidade têm várias ações efetivas contra das drogas, já de há muitos anos. Perdemos uma vida. Nos condoemos na derrota mas, ao mesmo tempo, sacudimos as dores e seguimos nas batalhas do dia a dia. Haverão vitórias, com certeza. 

domingo, 25 de agosto de 2013

O menino Gabriel e seus olhos negros.

Esta tarde peguei em meus braços um menino, Gabriel, de cerca de seis meses. Seus pais são haitianos. Vieram para cá e trabalham numa das indústrias locais que vêm atraindo mão de obra. Moram precariamente. Seus conterrâneos se aglomeram em pequenos cômodos, entre muitos. Foram atingidos pelas cheias do rio Taquari. Estão desabrigados e neste momento estão no pavilhão, no parque do Imigrante. Cortou-me a alma segurar Gabriel em meus braços. Olhei em seus olhos de bebê, sob a guarda vigilante de sua mãe. Gabriel não entende o que acontece. Mas seus pais sim. Têm bolivianos, também. Tem gente do Bangladesh, pequeno país muito pobre perto da Índia. Lajeado está multicultural.
Os pais de Gabriel são sobreviventes de um dos maiores desastres que a humanidade já viveu: um terremoto que matou mais de 200 mil pessoas e destruiu um país que já era muito pobre. Não há esperanças por lá e isto faz com que muitos saiam de lá em busca de um sonho. Ganham algo em torno do salário mínimo aqui e mandam parte do seu salário para sua terra natal, para matar a fome dos que ficaram. Entre o trabalho árduo, a saudade dos seus, e o viver em um lugar em que se fala uma língua estranha persistem.
Acompanhei um grupo esta tarde que se preocupava com sua situação. Flagelados, buscavam saber como fariam, já que não tinham como saber como fazer para trabalhar na segunda-feira. Perderiam os benefícios? Como se chega do abrigo até a fábrica? Como compreender o que se explica na língua mal compreendida?

Vivenciei uma poção de coisas e me emocionei um par de vezes. Fico pensando na felicidade que é ter uma família e certa estabilidade na vida. E fico pensando como é dura a vida de Gabriel, que recém nasceu e já está enfrentando toda sorte de desafios. Ele e seus pais. E todos aqueles que de alguma forma sobrevivem a cada dia, a cada hora. A próxima refeição é a conquista máxima... Que Deus ajude Gabriel. Que possamos, de alguma forma, amparar os bolivianos, bangladeshianos, haitianos, brasileiros, e todos os seres humanos em risco. Precisamos nos lembrar: nossa missão humana nada mais é do que promover a vida, acolher aquele que sofre, estender os braços. Me emocionei com o presente que recebi hoje: um abraço de conforto de Gabriel, nos seus inocentes seis meses de vida. Me sinto mais humano a partir de hoje, ainda consigo me emocionar...

domingo, 4 de agosto de 2013

Discurso na formatura de 03/08/2013 - Parabéns aos formandos da turma de Fisioterapia da Univates

Senhoras e senhores! O dia 03 de agosto de 2013 ficará na memória de todos aqueles envolvidos neste evento carregado de simbolismos que é a formatura. Amigos, amigas, pais, mães, familiares, companheiros e companheiras destes agora profissionais da Biomedicina, da Educação Física (Bacharelado), da Enfermagem, da Estética e Cosmética, da Farmácia, da Nutrição e da Fisioterapia, todos vocês estão de parabéns, pois, cada um à sua maneira, participou de uma série de momentos que, somados, culminam neste momento sublime. Tenho a honra de ter participado um pouco da jornada de muitos de vocês. Com os agora colegas fisioterapeutas convivi mais tempo e me honra muito estar na condição de paraninfo de vocês. Creio que o ápice da condição de professor é ver seus parceiros de jornada vestindo a toga, bonitos, iluminados, olhos brilhando pela felicidade de saber que o dever foi cumprido, a duras penas, mas com honra, humildade, sabedoria e luta. HONRA, HUMILDADE, SABEDORIA E LUTA. Ser profissional da saúde e, especificamente, FISIOTERAPEUTA, requer estarmos cientes de saber que é uma honra sabermos que o nosso trabalho melhora a vida das pessoas, faz elas mais felizes, mais independentes, mais funcionais. Na nossa prática profissional a HUMILDADE é fundamental, pois é ela que nos dá condições de trabalharmos com afinco, sem esmorecer jamais, em benefício daqueles que estão, literalmente, em nossas mãos, depositando suas esperanças em nosso trabalho. Mas, para isso, precisamos do CONHECIMENTO. E é no conhecimento que alicerçamos nossa existência, nosso profissionalismo, nossa capacidade de fazermos o bem, custo o que custar, sem jamais deixar-se cair no pecado de nos imaginarmos prontos. É no conhecimento que construímos a sabedoria, a experiência, as vivências em nossa vida e que fazem a diferença no agir, no estar na condição de FISIOTERAPEUTAS e PROFISSIONAIS DA SAÚDE e DA EDUCAÇÃO. Incluo aqui a EDUCAÇÃO por que todos nós somos educadores permanentes, de nós mesmos e daqueles com os quais trabalhamos e, nesta interação nos completamos, crescemos e nos tornamos seres humanos melhores, se estivermos sensíveis àquilo que acontece ao nosso redor. E, por fim, destaco a LUTA que é sermos profissionais da saúde nos dias de hoje. Há algumas semanas, nosso querido BRASIL viveu momentos extraordinários, onde milhões saíram às ruas clamando por uma série de causas difusas, gritando palavras de ordem da mesma ampla ordem. Mas, independente da procedência ou não de muitas destas reivindicações, o que vimos foi a vontade de LUTAR por aquilo em que se acredita. A LUTA, A BOA LUTA, sempre vale a pena. Lutar pela ética, pelo profissionalismo, pelo desenvolvimento da nossa profissão, tanto no campo da técnica quanto da política e do reconhecimento é o dever de todos nós. É dever por que o FISIOTERAPEUTA, tanto quanto qualquer profissional da saúde, não existe isoladamente no mundo. Nós somos no grupo, na comunidade, na coletividade de nossos pares e na prática de nosso trabalho junto àqueles que precisam de nosso trabalho, que é toda população brasileira, saudável ou adoentada. Se me é permitido pedir algo hoje, neste momento tão sublime, de tanta alegria, é que jamais desistam de LUTAR por tudo aquilo que acreditam. LUTEM PELA FISIOTERAPIA, LUTEM PELA SAÚDE DE QUALIDADE, lutem pela justiça social, pela diminuição das desigualdades. E, fundamentalmente, lutem com todas as forças pelo direito de serem FELIZES. Com HUMILDADE, com ÉTICA, com PACIÊNCIA, com SABEDORIA, com HONRA, façam valer a pena todos os anos em que estiveram nos ambientes da UNIVATES. Hoje vocês seguem caminho. LUTEM, VÃO PRA RUA, reivindiquem o DIREITO DE TER SONHOS, de JOGAR O JOGO LIMPO. LUTEM PELA FISIOTERAPIA, pela profissão que vocês abraçaram, com todas as suas forças. Honra-me muito estar aqui hoje, com vocês. Permita Deus que eu possa estar com vocês em muitos momentos de suas vidas ainda, daqui por diante. Permita Deus que vocês sejam felizes na Fisioterapia (e nas profissões que vocês todos abraçaram). Sigam, FIRMES E FORTES, SEMPRE!!!!